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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

CONFIRA E FAÇA: GINÁSTICAS CEREBRAIS



11 dicas 

de um cientista 

para estimular e manter 

o cérebro saudável


Crianças com brinquedo na cabeça
Segundo o cientista Facundo Manes, quanto antes forem iniciados os estímulos, melhor será para o cérebro na vida adulta e na idade avançada
Treze especialistas se reuniram recentemente, em Washington para discutir a evidência científica das atividades cognitivas ou intelectuais que podem ser realizadas para manter o cérebro saudável durante o envelhecimento.
Os estudiosos de Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Espanha, Suécia, Hong Kong e Argentina foram convocados pelas fundações Age UK, do Reino Unido, e AARP, dos Estados Unidos.
Eles chegaram a uma série de conclusões a partir de evidências científicas sobre como estimular o cérebro e viver melhor, publicadas no Global Council on Brain Health, um conselho internacional de cientistas, profissionais de saúde, acadêmicos e especialistas em políticas públicas.
Único latino-americano a participar do encontro, o neurocientista argentino Facundo Manes, doutor em ciências pela Universidade de Cambridge e reitor da Universidade Favarolo, de Buenos Aires, disse à BBC Brasil que "nosso cérebro muda constantemente" e que é "preciso estimulá-lo para mantê-lo vivo" - caso contrário, ele "morrerá cedo".
Quanto antes forem iniciados os estímulos, melhor será para o cérebro na vida adulta e na idade avançada.
Autor do livro Usar o cérebro - aprenda a usar a máquina mais complexa do universo, há mais de três anos na lista dos mais vendidos na Argentina e traduzido para outros países, entre eles o Brasil, Manes costuma realizar palestras gratuitas para os argentinos, enfatizando a importância da educação para que o cérebro e a memória sejam estimulados.
O cientista argentino diz ainda que o estilo de vida tem forte impacto no nosso cérebro, que está em constante mudança.
A seguir, Manes lista sugestões para estimular o cérebro, em qualquer idade:
Ilustraação de cérebroDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionPara o cientista argentina, "o estilo de vida tem forte impacto no nosso cérebro"
1) Propor a si mesmo metas e desafios intelectuais: Metas pessoais ou profissionais e trabalhos voluntários fazem bem ao cérebro. Além disso, ler, escrever ou aprender coisas novas melhoram as conexões cerebrais - o aprendizado de um novo idioma, por exemplo, é desafiador e estimulante para o cérebro. Aprender artes e pesquisar sobre a própria genealogia também são atividades cognitivas. A atividade intelectual deve ser mentalmente estimulante e ao mesmo tempo agradável.
2) Valorizar a vida social: O ser humano é um ser social. Precisamos estar em contato com outros seres humanos, assim como nosso cérebro. Geralmente, as pessoas isoladas morrem antes.
3) Cultivar relacionamentos: Ter vínculos profundos com outras pessoas nos dá mais sensação de bem-estar do que ter fama, por exemplo.
4) Reconhecer seus sentimentos, como chorar na hora da tristeza ou da dor porque não é possível "se forçar" a ser feliz quando o momento não corresponde. A emoção facilita a consolidação da memória. Na vida nos esquecemos de quase tudo, mas lembramos do que nos emociona, sejam emoções positivas ou negativas. Por exemplo, a maioria das pessoas lembra o que estava fazendo no dia do atentado ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, mas não o que fizeram um dia antes ou depois.
Ilustraação de cérebroDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionSegundo cientista Facundo Manes, pessoas isoladas, sem vida social, têm a tendência de morrer antes
5) Pensar positivamente: Todos temos pensamentos tóxicos, mas alguns têm mais pensamentos tóxicos que outros. Estes veem mais o lado negativo do que o positivo e têm mais tendência a serem depressivos e ansiosos. E isso também afeta o desempenho do cérebro.
6) Não "se aposentar" de tudo: A aposentadoria é um direito de todos. No entanto, uma coisa é a aposentadoria prevista quando chegamos a determinada idade. A outra, bem diferente, é se aposentar do que gostamos de fazer. Não devemos nunca nos aposentar, desistir das atividades que nos dão prazer. Seja escrever, seja lidar com o público. Não importa a atividade, mas manter o cérebro ativo trabalhando naquilo que você gosta.
7) Comer de forma saudável: ajuda a manter o cérebro em forma. Tudo o que faz bem ao coração também é bom para o cérebro.
8) Praticar esportes regularmente: alguns esportes têm o poder de unir a memória ativa, o corpo saudável e a vida social. É o caso do tênis, por exemplo, que nos obriga a estar atentos onde a bola vai e a fazer exercício e com outra pessoa. O mesmo caso ocorre com a dança de salão, que exige atenção aos passos e aos parceiros, além de ser uma atividade física.
9) Aprender um idioma: é um mito que os mais idosos não podem aprender um idioma. É verdade que as crianças podem aprender mais rápido, mas isso não significa que os mais velhos não possam aprender.
10) Dormir bem e administrar o estresse.
11) Manter o corpo em dia: Controle da pressão arterial, do colesterol, do nível de glicose no sangue, além do acido fólico, da vitamina B12 e o controle do peso também são vitais para cuidar do cérebro.


FONTE:

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

NOBEL DA PAZ GERA POLÊMICA



Premiados com 

Nobel da Paz 

podem decepcionar 

ou gerar polêmica



Aung San Suu Kyi, líder birmanesa, durante discurso sobre a situação da minoria muçulmanda rohingya (Foto: REUTERS/Soe Zeya Tun)
Aung San Suu Kyi, líder birmanesa, durante discurso sobre a situação da minoria muçulmanda rohingya (Foto: REUTERS/Soe Zeya Tun)


Casos como da birmanesa Aung San Suu Kyi e de Barack Obama frustraram as esperanças que geraram ao longo dos anos.





A mais que centenária história dos prêmios Nobel da Paz está salpicada de laureados - o caso mais recente o da birmanesa Aung San Suu Kyi - que, admirados durante um tempo, acabaram frustrando as enormes esperanças que geraram.
A cada mês de outubro, os anúncios do comitê Nobel norueguês costumam provocar protestos mais ou menos enfáticos e, em alguns casos, debates exaltados. Poucas são as pessoas escolhidas que suscitam unanimidade, mas Aung San Suu Kyi foi uma delas.
A chamada "Dama de Rangun" recebeu em 1991 o Prêmio Nobel da Paz por sua resistência pró-democracia frente à junta militar que comandava Mianmar.
Porém, mais de duas décadas depois, a atual líder de fato do país é alvo de inúmeras críticas por sua inação ante a campanha de seu exército contra a minoria muçulmana rohingya, que a ONU classificou de "limpeza étnica".
"Estou decepcionado", admite Geir Lundestad, que foi secretário do comitê Nobel entre 1990 e 2014. "Aung San Suu Kyi era uma premiada extremamente popular e meritória, heroica, dada as circunstâncias, mas não posso aprovar seu comportamento a respeito dos rohinygas".
Cerca de 430.000 pessoas assinaram uma petição online para pedir a revogação do prêmio, e vários premiados com o Nobel da Paz, como Desmond Tutu ou o Dalai Lama, criticaram publicamente a líder birmanesa.
"É dramático", diz o historiador do Nobel, Asle Sveen. "Que uma pessoa que lutou pela democracia e foi tanto tempo popular se encontre em semelhante situação pouco usual".
Pouco usual, mas não inédita. Outros premiados perderam parte de sua popularidade depois de receber essa distinção.

Acusações

Um deles foi o ex-presidente americano Barack Obama. Sua escolha como Prêmio Nobel da Paz em 2009, apenas nove meses depois de sua chegada à Casa Branca, suscitou certa incredulidade, apesar de ainda gozar de uma boa popularidade na ocasião.

Oito anos depois, muitos continuam pedindo, principalmente nas redes sociais, que o prêmio seja retirado dele.
"Era impossível para qualquer um estar à altura das expectativas geradas. Eram totalmente irrealistas", afirma Lundestad. "Não acho que o comitê esperasse que Obama revolucionasse totalmente a política internacional: não se tratava de mudar tudo, e sim avançar em uma boa direção".
Outros premiados foram alvo de acusações mais graves, como o ex-líder histórico do sindicato polonês Solidariedade, Lech Walesa.
O Prêmio Nobel da Paz de 1983 é alvo de denúncias persistentes sobre sua suposta colaboração com os serviços secretos comunistas. Walesa, que nega as acusações, ameaçou em 2009 abandonar a Polônia e devolver o prêmio.
Décadas antes, o pacifista italiano Ernesto Moneta foi criticado por apoiar a entrada na guerra de seu país contra o Império Otomano em 1911, quatro anos depois de receber o Nobel.
A austríaca Bertha von Suttner, uma íntima amiga de Alfred Nobel e que recebeu o prêmio da Paz em 1905, propôs que Moneta perdesse sua distinção e seus títulos no movimento pacifista, recorda o historiador Ivar Libaek na coletânea "Cem anos pela paz".

Ninguém é perfeito

Depois da Segunda Guerra Mundial, houve dois casos em que a escolha do Nobel da Paz foi tão polêmica que alguns dos cinco membros do comitê pediram demissão.
Dois se demitiram em 1973, quando a dupla formada pelo secretário de Estado americano Henry Kissinger e o representante do Vietnã do Norte, Le Duc Tho, levou o prêmio por assinar uma trégua efêmera na guerra do Vietnã.
Em 1994, um membro renunciou para protestar contra o prêmio concedido ao palestino Yasser Arafat junto com os israelenses Shimon Perez e Issac Rabin, um ano depois da assinatura dos Acordos de Oslo.
Le Duc Tho não aceitou o prêmio, enquanto Kissinger não foi recebê-lo em Oslo por temer manifestações de protesto.
Kissinger quis devolvê-lo em 1975, mas o comitê negou categoricamente a proposta. O estatuto da Fundação Nobel não admite a devolução do prêmio, nem sua revogação.
"Nenhum dos prêmios Nobel é perfeito", opina Lundestad. "Muitos sentem sem dúvida a responsabilidade de serem exemplares, mas, uma vez entregue o prêmio, o comitê não pode fazer nada".




FONTE:

Por France Presse
 

DEPRESSÃO PÓS-PARTO



'Para de chorar porque o seu marido vai cansar': o estigma da depressão pós-parto, que afeta 1 em 4 mães no Brasil



Elenise Costa


Elenise foi diagnosticada com depressão após o nascimento do filho (Foto: Ana Terra Athayde/BBC Brasil)


"Como uma mãe com um filho perfeito, lindo e saudável poderia estar triste? As pessoas não conseguem entender isso e te cobram", diz a professora Elenise Costa, de 37 anos, sobre a depressão pós-parto.
Na época com 34 anos e casada há dois, Elenise Costa sonhava com o nascimento do primeiro filho. A gravidez não foi fácil. Por causa de complicações decorrentes de endometriose e um mioma, Elenise teve que parar de trabalhar e ficar de repouso desde a 18ª semana de gestação.
"Na gravidez, já comecei a me sentir um pouco triste," diz. "Lembro que no dia do parto eu já me senti triste".
Era o início do período mais difícil da vida de Elenise, que foi diagnosticada com depressão após o nascimento do filho. Por algum tempo, ela sofreu sozinha. Elenise diz que só conseguiu contar para o marido o que estava sentindo quando o filho tinha 15 dias. Cansada, preocupada, com taquicardia e tremores, ela tinha vergonha de admitir que não estava feliz com o começo da maternidade.



'Como você pode estar triste no momento mais feliz de sua vida?'

Moradora de Maricá, município da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, ela aos poucos compartilhou o que estava vivendo com amigos próximos e familiares, mas não recebeu o apoio do qual precisava. "Ouvi de pessoas que achei que poderia contar coisas do tipo 'olha, fica bem porque você vai perder seu marido. Para de chorar porque o seu marido vai cansar'", relata.
Resistir a procurar atendimento psicológico durante a gravidez ou após o parto não é incomum entre mulheres. Um estudo em andamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) entrevistou 221 gestantes que fazem o pré-natal em uma unidade da Escola Nacional de Saúde Pública em Manguinhos, região carente do Rio. Entre as entrevistadas, 32% apresentaram sintomas depressivos. No entanto, menos da metade dessas mulheres aceitou ser avaliada por um profissional especializado - 52% se negaram a receber ajuda.
"A gente tem sempre uma visão de que o serviço de saúde não oferece [atendimento voltado para a saúde mental de gestantes]. E muitas vezes não oferece mesmo. Só que o que nós encontramos é algo que consideramos mais sério ainda: elas não querem", explica a pesquisadora Mariza Theme, responsável pelo estudo.


"O transtorno mental tem associado a ele um estigma muito grande. Esse estigma é uma das principais causas para a pessoa não procurar tratamento", diz.

Saúde mental de grávidas e mães após o parto

O novo estudo da Fiocruz surgiu como um desdobramento do trabalho feito para a pesquisa Nascer no Brasil, que mostrou que uma em cada quatro mulheres que já tiveram filhos no país apresenta sintomas de depressão pós-parto. Para entender melhor o processo de mudanças na saúde mental perinatal (da gravidez ao pós-parto) de mulheres e por que algumas não procuram ajuda, a análise agora prevê que cada mãe incluída na pesquisa seja avaliada em três momentos diferentes: no início e no final da gestação, e depois que o bebê tem dois meses ou mais.
Os especialistas ressaltam a importância de identificar qualquer tipo de transtorno mental ainda na gravidez. Em uma pesquisa com 506 mulheres atendidas em unidades básicas de saúde da Zona Norte de São Paulo, 45% das que estavam grávidas e diagnosticadas com depressão vieram a apresentar sintomas também entre 6 a 9 meses após o parto.

Elise vendo desenhos do filho
Image captionApós a licença-paternidade do marido, Elenise não contou com a ajuda de ninguém para cuidar do filho

Segundo o ginecologista Alexandre Faisal, pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do estudo, as mulheres que apresentaram sintomas de depressão pós-parto moderada ou grave tinham menor confiança para cuidar do bebê. A pesquisa, que está para ser publicada e foca em mulheres em situação mais vulnerável, indica que mulheres que recebem acompanhamento desde a gestação podem ter menos chances de desenvolver problemas no pós-parto.
"Historicamente a depressão na gravidez e no pós-parto acabou ficando relegada para um plano secundário, quer pelo fato de o médico não ser treinado para diagnosticar, quer porque a paciente e a família não pedem socorro num momento tão difícil, por vergonha ou estigma social," explica.
"Agora as evidências todas sugerem que esse é um problema sério desse período [perinatal] e que também merece ser rastreado", diz. "Esse rastreamento permite a adoção de uma medida psicoterápica e medicamentos que vai prevenir ou diminuir o impacto negativo da doença".
Muitas mães, no entanto, temem as possíveis consequências do uso de medicamentos durante a gravidez ou amamentação, mesmo sob orientação médica. Faisal explica que os efeitos colaterais são menores do que os imaginados. "Esse risco não é zero, varia de acordo com o antidepressivo e em relação ao trimestre [da gravidez], mas é um risco absoluto muito pequeno. E a contrapartida disso é que, se a pessoa não usa, ela pode ter complicações para ela e para a gravidez".

Baby blues, depressão e psicose: diferenças, sintomas e riscos

A prevalência de mulheres que sentem um pouco de tristeza após o parto pode chegar a 70%, segundo Faisal. O chamado baby blues costuma ser limitado aos primeiros 10 dias e se caracteriza por uma leve tristeza, que se resolve espontaneamente. O estado costuma ser atribuído a uma flutuação hormonal, embora aspectos psicológicos não possam ser descartados.
Já a depressão pós-parto é um cenário diferente, mais longo, e que apresenta entre suas características a perda de interesse por coisas que antes eram prazerosas, humor deprimido, pensamentos negativos e a sensação de ser incapaz de cuidar do recém-nascido. "A mulher pode ter o temor de que não vai conseguir dar o banho ou que vai machucar o bebê", ressalta Faisal.

Grávida olhando pela janelaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionResistir a procurar atendimento psicológico durante a gravidez ou após o parto não é incomum entre mulheres

Há ainda um terceiro transtorno, mais raro e perigoso: a psicose puerperal, que pode atingir 1 em cada mil mulheres, segundo Faisal. Neste caso, o contato com a realidade fica prejudicado e a pessoa passar a ter delírios. Tanto a depressão pós-parto mais intensa como a psicose puerperal, quando não tratadas, podem ter consequências graves como o suicídio e o infanticídio.
Por conta do estado puerperal, o infanticídio é um tipo penal diferente do homicídio no país. De acordo com o artigo 123 do código penal brasileiro, o crime de infanticídio se dá quando a mãe mata o próprio filho, durante ou logo após o parto. A pena prevista é de dois a seis anos de detenção - menor que a de homicídio simples, que é de seis a 20 anos de reclusão.
"Não se trata de uma pessoa que tenha planejado aquilo nos mínimos detalhes. Você está falando de uma pessoa numa situação psicossocial muito específica, e quando os jurados entram em contato com essa explicação, eles também se sensibilizam", explica Bruna Angotti, advogada e antropóloga, que acompanhou três júris de infanticídio nos últimos três anos em São Paulo, como parte de sua pesquisa de doutorado na USP.

Falar sobre o problema

Para Elenise Costa, o momento mais difícil do pós-parto se deu quando o filho tinha cerca de 20 dias de vida. "Os meus pensamentos ficaram confusos, eu já não conseguia me concentrar, não conseguia ler uma frase de um livro ou acompanhar um programa na televisão", explica. "Eu continuava cuidando do meu filho, mas os sintomas estavam muito fortes".
Ela relata que a preocupação com o filho chegava a ser excessiva, por medo de que algo acontecesse com o bebê. "Quando meu marido saía para trabalhar, eu ficava muito nervosa e ansiosa, como se eu não soubesse o que fazer. Na verdade, eu não sabia mesmo, mas achava que tinha que saber. Mais um mito [da maternidade], né? Eu achava que tinha que saber tudo".


Elenise e o marido procuraram ajuda médica. Eles passaram por quatro profissionais, entre terapeuta, ginecologista e psiquiatras, até Elenise começar um tratamento. Inicialmente ela não quis tomar medicamentos, pois o psiquiatra havia dito que ela teria que parar de amamentar. Ela acredita que, se na primeira consulta o médico a tivesse orientado em relação à possibilidade de conciliar determinados antidepressivos e amamentação, os sintomas não teriam ficado tão fortes.
"Em geral não temos uma assistência à saúde mental perinatal organizada e estruturada", diz Márcia Baldisserotto, coordenadora do grupo de trabalho de saúde mental do Fórum Perinatal da Região Metropolitana I do Rio de Janeiro.
"Uma gestante chega para o pré-natal e examina pressão, glicose, várias questões biológicas que são importantes. Mas uma triagem e escuta da saúde mental não está sendo feita em geral. No pós-parto, ela quase não faz exame. É a nossa filosofia de olhar só a criança e esquecer a mãe. Isso é histórico no Brasil em termos de política pública."
O Ministério da Saúde afirma, em nota, que, desde o pré-natal na Unidade Básica de Saúde até a atenção hospitalar, os profissionais que acompanham a gravidez e realizam as consultas e atendimentos são capacitados para identificar sinais e fatores de risco que podem levar a gestante a desenvolver depressão após o nascimento do bebê, e orienta que todas as mulheres recebam visitas domiciliares e realizem consulta puerperal para avaliar, entre outras coisas, sua condição psicoemocional.

Exame por ultrassom durante gravidezDireito de imagemVINICIUS MARINHO/FIOCRUZ IMAGENS
Image caption'Em geral não temos uma assistência à saúde mental perinatal organizada e estruturada', diz especialista

Atualmente, há 19 fóruns perinatais ativos no país, compostos por representantes de secretarias estaduais e municipais de saúde, do Ministério da Saúde, de maternidades privadas e da sociedade civil. Os fóruns têm como objetivo discutir assuntos relacionados à saúde e qualidade de vida da mulher e do bebê e criar estratégias que possam melhorar o cuidado e reduzir a mortalidade materna e infantil.
No Rio de Janeiro, o fórum começou a atuar em 2015. O grupo de trabalho voltado para a saúde mental se reúne uma vez por mês, em média, segundo Márcia. No fim de outubro, será realizado um primeiro seminário sobre o tema, aberto ao público, que irá discutir a necessidade de implementação de um protocolo de atendimento à saúde mental durante o ciclo perinatal.
Para Elenise, que se recuperou da depressão pós-parto, uma rede de apoio às mães também é fundamental. Como o marido teve que voltar a trabalhar após o curto período de licença-paternidade, ela diz que não contou com a ajuda de ninguém para cuidar do filho. "Você não pode descansar, porque você tem casa para arrumar, comida para fazer, roupinha para lavar e passar. Cuidar de um recém-nascido é muito desgastante."
Ela ainda se emociona ao falar sobre o que viveu e espera que seu relato ajude a mudar o estigma associado ao transtorno. "Eu tinha muita vergonha de falar sobre o assunto. Ainda tenho, e muitas pessoas não sabem pelo que passei", diz. "É fundamental pedir ajuda. É preciso falar sobre o período pós-parto, porque nenhuma mulher deve passar por isso sozinha."


FONTE: